O Brasil e a Escócia já se encontraram quatro vezes na Copa do Mundo, mas o duelo de 1982 ficou especialmente na memória dos torcedores. Naquele ano, os escoceses contavam com um time recheado de estrelas como Kenny Dalglish e Graeme Souness, jogadores que brilhavam em grandes clubes da Europa. A seleção escocesa estava em boa fase, com apenas uma derrota nas Eliminatórias, e muitos acreditavam que aquele era o melhor elenco já montado pelo país. O meio-campista John Wark, em uma entrevista, relembrou: “Tínhamos jogadores que já conquistaram tudo. Eles precisavam de alguém que inspirasse respeito, e o grande Jock Stein fez isso.”
Chegando à Copa do Mundo, a Escócia sonhava em finalmente quebrar o tabu de cair na primeira fase. O grupo, que incluía também a União Soviética e a Nova Zelândia, parecia promissor. Na estreia, os escoceses mostraram sua força, goleando a Nova Zelândia por 5 a 2, com gols de Dalglish, Wark (duas vezes), John Robertson e John Archibald. Wark comentou sobre a vitória: “Quando você marca cinco vezes, sai do campo pensando que se saiu muito bem. Sabíamos que precisávamos vencer os azarões, e conseguimos.”
No entanto, a esperança começou a se dissipar rapidamente no segundo jogo, quando enfrentaram um Brasil que encantava o mundo com seu estilo de jogo. A seleção brasileira de 1982 ficou famosa por seu futebol arte, e nesse duelo, mostrou toda sua qualidade. A Escócia até começou bem, abrindo o placar com um gol de David Narey aos 15 minutos, um chute bem colocado que deixou o goleiro brasileiro sem chances. Mas, como Wark lembrou, “o nosso gol só os irritou. Depois disso? Foi uma verdadeira aula.”
O Brasil reagiu com uma cobrança de falta magistral de Zico, que empatou a partida. Em seguida, Oscar virou o jogo de cabeça após um escanteio cobrado por Júnior. O terceiro gol foi um verdadeiro espetáculo, quando Éder, de longe, viu o goleiro Alan Rough adiantado e fez um belo gol de cobertura. O último gol da partida veio com Falcão, que marcou após uma linda troca de passes. Gordon Strachan, ex-jogador escocês, comentou sobre a qualidade do time brasileiro: “Eles eram bons, mas o que você não percebe é que a altura e a força deles eram incríveis.”
Outro desafio que os escoceses enfrentaram naquela partida foi o calor intenso da Espanha. John Wark lembrou como era difícil jogar sob aquelas condições. Enquanto os escoceses suavam durante os hinos, os brasileiros pareciam tranquilos. “O calor não ajudou. Durante os hinos, o suor escorria de nós, e olhei para a fila de jogadores deles. Nem uma gota sequer em uma única testa. É inacreditável pensar que a seleção brasileira não ganhou a Copa do Mundo”, desabafou Wark.
No último jogo da fase de grupos, a Escócia precisava vencer para avançar. O empate não era suficiente, já que o saldo de gols a favorecia. Eles começaram bem, abrindo o placar com um gol de Joe Jordan, mas acabaram perdendo para os soviéticos. O gol de empate de Graham Souness no final não foi suficiente, e a eliminação foi muito sentida. Joe Jordan refletiu: “Os gols que sofremos foram difíceis de engolir. Quando você chega a esse nível, precisa fazer o adversário suar para marcar.”
Após a partida, John Wark compartilhou uma curiosidade: havia uma grande expectativa entre os jogadores escoceses em trocar camisas com Zico. Kenny Dalglish e Alan Hansen foram atrás do craque brasileiro, mas Zico tinha uma peculiaridade: ele só colecionava camisas número 10. No fim, Zico acabou oferecendo sua camisa para Wark, que, após a partida, a doou para uma instituição de caridade. Essa história ilustra não apenas a rivalidade em campo, mas também o respeito e a admiração entre os atletas.